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É PROIBIDO PROIBIR?

Atualizado: Mar 8


Do início de 2020 para cá, passamos a viver em um mundo estranho, quase surreal. Princípios e valores que julgávamos universais, perenes e solidificados na sociedade, foram relativizados. Viraram pó. Como isso foi possível? O texto a seguir oferece uma visão desse processo.


Os mais vividos hão de se lembrar do célebre festival da canção de 1968, quando foi popularizado o refrão: "É proibido proibir". Pouco tempo antes, em março de 1964, João Goulart abandonou o cargo de presidente da República. Temia ser deposto e aprisionado pelo movimento civil e militar que brecou seu projeto de reformas socialistas. Não foi preciso disparar um único tiro para afugentar do país a camarilha vermelha, pois a Igreja Católica capitaneou passeatas gigantes, enquanto grupos de estudantes universitários, como os da Universidade Mackenzie, saíam no tapa com seus pares comunistas da USP. Editoriais dos grandes jornais saudaram a Revolução de 31 de março, e o projeto totalitário de conquista do poder desabou como um castelo de cartas.


Mas voltemos a 1968, quando os EUA viviam o auge o movimento da Contracultura. Militantes feministas queimavam sutiãs em protesto contra o “machismo”; negros protestavam contra o racismo; hippies fugiam da conscrição para a Guerra do Vietnã e até do banho diário. Bandeiras libertárias foram criadas, como o “amor livre”, o anticapitalismo, o abortismo, o culto à natureza, e a popularização do uso de drogas. O movimento ecoou pelo Ocidente.


Ganhou corpo uma onda de protesto estudantil, organizada e estimulada por professores marxistas, que tomou as ruas da França em maio. Qual foi o estopim? Fome? Baixos salários? Desemprego? Mensalidades escolares caras? Nada disso. Os universitários bradavam contra a divisão dos dormitórios dos estabelecimentos de ensino entre homens e mulheres, pressionando para que o Estado fosse conivente com a promiscuidade nos alojamentos. Foi o suficiente para o início de confrontos com a polícia, quando exibiram faixas de apoio à ditadura de Mao Tsé-tung e aos comunistas do Vietnã do Norte. Também lá a revolta foi um fracasso, pois nas eleições seguintes os políticos vinculados ao presidente Charles de Gaulle (um conservador) conseguiram expressiva vitória nas urnas. Sobraram os slogans da intifada juvenil: "Sejam realistas, exijam o impossível", "Parem o mundo, eu quero descer" e "É proibido proibir". Esse é o momento em que chegamos ao Brasil.


Durante uma das eliminatórias do Festival da Canção de 1968, Caetano Veloso foi vaiado ao cantar com os Mutantes a música “É Proibido Proibir”, composta com versos macaqueados do movimento estudantil francês. Ele interrompeu a apresentação para proferir um virulento discurso contra o governo — ato político num país de imprensa e opinião livres, no qual o AI-5 seria decretado apenas em dezembro, apesar da série de ações terroristas pregressas, como o atentado a bomba em Recife contra o presidente Costa e Silva, em 1966. Resultado: o público rejeitou a militância do artista, virando-se de costas para o palco, e a canção foi desclassificada, o que provocou sua ira:


Mas é isso que é a juventude que quer tomar o poder? [...] Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada".


Caetano Veloso no Festival da Canção de 1968: "Vocês não estão entendendo nada". Hoje nós entendemos.

Muita coisa mudou desde então. A Contracultura inspirou modismos e um novo vocabulário. No Brasil, tivemos a tropicália; a entronização da juventude como formadora de opinião e de costumes; o “baseado” e a “amizade colorida”. Disforias, transtornos mentais, sexuais e comportamentais foram retirados da CID (Classificação Internacional de Doenças), os críticos chamados de “quadrados”, "caretas" e, mais tarde, de “fóbicos”. Caetano Veloso escapou do risco de ser ridicularizado em festivais, pois passou a receber fortunas (muitas delas pagas com dinheiro público) por shows contratados graças a gentileza de políticos alinhados ideologicamente, ou oriundas de leis de incentivo (vide https://tinyurl.com/ry2cd343).


Não foi o único. O tropicalismo alçou ao estrelato outros membros da sua trupe. Gilberto Gil ocupou o cargo de Ministro da Cultura, e seu feito mais expressivo no comando do ministério foi uma performance no plenário da ONU. Em 2011, Maria Bethânia, irmã de Caetano, teve aprovado o pedido junto ao MINC para captar R$ 1,3 milhão. A finalidade? Montar um blog...


O "É proibido proibir” passou a reinar soberano no Ocidente. A democracia, os direitos pessoais, a liberdade individual — de expressão, em particular — pareciam enraizados com firmeza no solo da cultura ocidental. Contudo, eram máscaras, nada mais. Foi preciso uma pandemia para retirá-las.


Hoje vemos boa parte da sociedade defendendo a adoção de medidas autoritárias contra os mais básicos direitos humanos: o direito à vida e à liberdade. Apoiados por uma onda de terror midiático jamais vista, aspirantes a ditador proíbem ao comerciante ganhar o pão que sustenta sua família, por não estarem no rol das “atividades essenciais”. Negam ao trabalhador comum — que usa a condução lotada na rotina diária — uma simples caminhada no parque ou na praia, enquanto desfrutam de todo o conforto, às escondidas, em iates, viagens internacionais e resorts de alto luxo, ao lado de artistas e outros políticos endinheirados. A motivação, claro, é a “defesa da vida”.


Somente os mais canalhas e hipócritas são capazes de usar tal argumento enquanto apoiam o assassinato no mais sagrado e precioso dos santuários: o ventre materno. Fato inconteste, a militância de “Esquerda” (definição genérica para os marxistas) despreza a vida humana que não seja a da sua corriola. Exemplos não faltam. Um vira-latas maltratado no estacionamento de um supermercado, por exemplo, lhes é incomensuravelmente mais revoltante do que o caso do menino castrado, assassinado e esquartejado por sua mãe e a parceira sodomita. Nessa toada estão alguns tropicalistas do “É proibido proibir”, ferrenhos defensores do lockdown — e, por tabela, da ruína econômica do Brasil. Onde foi parar a tal “defesa da liberdade” usada como estandarte em 1968?


A resposta é simples. Nenhum deles lutava contra a censura em si, mas em prol de ideologias totalitárias, sob a camuflagem de flores tropicais. Nenhum deles possuía real desapreço pelo autoritarismo, mas pelo Ocidente e seus valores. Infelizmente, a realidade brasileira em 2021 difere muito em relação à de 1968, pois o marxismo cultural foi disseminado com sucesso, como uma doença maligna no corpo da sociedade. O jogo virou. Fosse hoje festival da canção, talvez o título da música seria algo como: “É permitido proibir”, ou mesmo “É imperativo proibir”. Com a militância dando as cartas na imprensa e círculos culturais, agora é necessário suprimir opiniões divergentes, cancelar perfis nas redes sociais, doutrinar as crianças desde a mais tenra idade, prender jornalistas e até deputados que ousem contrapor decisões e discursos ditatoriais. Às favas a liberdade.


Não há lugar para a autonomia individual na utopia totalitária, a não ser no rol de artigos do código penal. Você pode até duvidar, mas há um grande contingente de pessoas que odeia sua forma de viver, seu casamento, família, crença religiosa e valores pessoais. Execram sua autodeterminação e farão de tudo para lhe colocar sob as botas do Estado onipotente, de forma a impor, a ferro e fogo, sua visão degenerada, materialista e opressora de mundo, nem que precisem erguer montanhas de cadáveres. A história do século XX foi pródiga nessas tentativas.


Convém lembrar: o autoritarismo que usa a pandemia como álibi é apenas um aperitivo desse universo sombrio.

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